🌍 Entre dois mundos: o adolescente e o exílio da linguagem
Por Adriane Oliveira — Psicanalista
A adolescência, diz Lacadée (inspirando-se em Freud e Lacan), é antes de tudo uma crise de linguagem. O adolescente descobre um corpo novo, tomado por sensações e desejos inéditos, e tenta encontrar palavras para o que ainda não pode ser dito.
É como se precisasse — nas palavras de Rimbaud — “encontrar um idioma” próprio.
Freud via esse momento como um “túnel perfurado dos dois lados”: de um lado, rompe-se a autoridade e o saber dos pais; de outro, irrompe o real do corpo, a sexualidade, o gozo. O sujeito atravessa um buraco simbólico — deixa de ser criança, mas ainda não sabe como ser adulto.
🧭 Quando a adolescência acontece no deslocamento
E se essa travessia acontece longe do lugar de origem?
O adolescente que vive uma mudança de país, muitas vezes contra sua vontade — porque foram os pais que decidiram — é duplamente atravessado por perdas. Ele precisa renunciar à infância e, ao mesmo tempo, à terra, aos amigos, à língua que o nomeavam até então.
Essa experiência cria um duplo exílio:
- o exílio do corpo infantil, que já não responde mais como antes,
- e o exílio da língua materna, que já não dá conta de dizer o novo.
Muitos adolescentes imigrantes vivem uma resistência à mudança: recusam a nova escola, mantêm vínculos intensos com os amigos do país de origem, isolam-se, ou parecem não “querer se adaptar”. Essa resistência, longe de ser um simples “problema de comportamento”, pode ser lida, à luz da psicanálise, como uma tentativa de preservar algo de si diante da avalanche de novas significações impostas pelo Outro — a nova cultura, a nova língua, o novo olhar social.
💬 A crise de linguagem e o pedido de escuta
Lacan nos lembra que o adolescente busca tomar uma posição na linguagem.
Quando tudo muda — o corpo, o país, os códigos — o adolescente tenta reinventar-se através de palavras, gestos, silêncios ou atos.
Às vezes, a resistência é o modo que ele encontra de dizer “não” para poder começar a dizer “sim” de outro modo.
A tarefa da escuta analítica, nesse contexto, não é corrigir ou acelerar adaptações, mas oferecer um espaço onde o jovem possa criar sua própria tradução: da língua materna para a língua estrangeira, da infância para a adolescência, do desejo dos pais para o seu próprio.
🌱 O que pode nascer desse entre-lugar
Quando um adolescente imigrante encontra alguém disposto a escutá-lo sem julgamentos, ele pode começar a fazer laço entre esses dois mundos — o de onde veio e o que o recebe.
A análise, nesse sentido, não o obriga a escolher entre culturas, mas o ajuda a habitar o intervalo, a fazer desse espaço de exílio um lugar de criação.
Pois é justamente nesse entre — entre línguas, entre amores, entre mundos — que o adolescente pode inventar a sua própria fórmula, como diria Rimbaud.
E talvez, desse lugar singular, reencontrar algo do prazer de viver e de falar.
📢 CHAMADA PARA AÇÃO
Seu filho precisa de um lugar para traduzir o exílio?
Se você está vendo a dificuldade do seu filho se manifestar como isolamento, resistência ou atos sem palavras, saiba que essa “crise de linguagem” é um pedido de escuta.
A psicanálise oferece a possibilidade de transformar o exílio em um ponto de partida, permitindo que ele invente o seu próprio lugar no novo mundo, sem ter que apagar o que ele já foi.
Como Psicanalista, ofereço um espaço de escuta sem julgamentos para jovens em travessia cultural.
Vamos conversar sobre essa travessia?
📌Convite para o artigo acadêmico externo (blog)
Se deseja explorar uma perspectiva mais aprofundada e fundamentada sobre a prática clínica a distância, acesse nosso artigo no blogger: https://www.blogger.com/u/2/blog/posts/527780478109224882. Nele, discutimos aspectos teóricos, éticos e técnicos do atendimento psicanalítico.


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