
Viver no exterior carrega um peso invisível que pouca gente corajosa admite. Nas chamadas de vídeo com o Brasil, a tela se acende e, quase no automático, o sorriso entra em cena. A pergunta vem rápida: “Como estão as coisas por aí?”. A resposta vem mais rápida ainda: “Tudo ótimo, caminhando super bem!”.
Mas, quando a chamada desliga e a tela fica preta, o silêncio da casa pesa. Tantas vezes, resta um cansaço profundo — não apenas pelo trabalho ou pelo idioma, mas pela exaustão de sustentar uma cena.
Para a psicanálise, essa exaustão tem nome. Existe uma distância enorme entre quem você precisa parecer ser para os outros e aquilo que realmente se passa no seu íntimo.
O ideal que te acompanha na mala
Sigmund Freud falava sobre o Ideal do Eu: uma espécie de imagem perfeita que construímos sobre nós mesmos, moldada pelo desejo dos nossos pais e pelas expectativas da nossa família.
Quando você decide morar fora, sem perceber, leva esse ideal na bagagem. Para a família que ficou no Brasil, você pode ter se tornado “aquele que venceu”, “aquele que está na Europa, nos Estados Unidos, no estrangeiro”. Suportar essa fantasia — sua ou dos seus familiares — pode estar exigindo um esforço monumental.
Assim, o cansaço não vem apenas das horas trabalhadas, mas da energia gasta para sustentar um “personagem” que não pode fraquejar, não pode sentir saudades da forma “errada”, não pode demonstrar dúvidas e não pode adoecer!
Admitir que a adaptação está difícil, que o clima pesa ou que a solidão machuca parece, para o inconsciente, uma espécie de traição ou fracasso diante do sacrifício de ter ido embora.
A máscara que esconde o sujeito
Jacques Lacan deu um passo além ao mostrar como nos estruturamos através da linguagem e do olhar do outro. Muitas vezes, vivemos encarcerados no Eu (Moi) — uma imagem idealizada, bonita e forte que montamos para ser amados e reconhecidos.
Nas chamadas de vídeo para o Brasil, você se apresenta como uma imagem sem fissuras:
- O prato bonito no restaurante ao fim de semana.
- As fotos de passeios pelas ruas europeias.
- O discurso contínuo de que “aqui as coisas funcionam”, “o sonho americano”, “o retorno à pátria dos seus antepassados”, o orgulho da descendência italiana ou portuguesa.
O problema é que o seu Desejo real e a sua dor não cabem nessa moldura perfeita. Quanto mais você fortalece essa imagem de “forte” para o público de casa, mais distante fica da sua própria verdade. O cansaço que você sente é o sintoma: é o corpo pedindo passagem para a verdade que a imagem tenta esconder.
O peso da dívida invisível
Existe também um sentimento de dívida inconsciente. Muitas vezes, quem emigra sente que não tem o “direito” de reclamar, porque a família no Brasil enfrenta problemas financeiros, violência ou instabilidade.
Surge então uma lógica perversa: “Eles estão sofrendo no Brasil, então eu não posso me dar ao luxo de sofrer na Europa” ou “Se for para sofrer, que seja em Paris”.
Essa comparação cala a sua dor. Mas a dor não desaparece apenas porque é ignorada; ela se transforma em ansiedade, insônia, isolamento e uma sensação contínua de não pertencer a lugar nenhum — nem ao país onde mora, nem à família que deixou.
Abrir mão da perfeição para dar lugar à escuta
Parecer forte para a família é uma tentativa de proteger quem você ama, mas também de se proteger do risco de decepcionar. No entanto, a saúde psíquica exige a coragem de atravessar essa imagem e aceitar a própria vulnerabilidade.
Você não precisa dar conta de tudo o tempo todo. Fazer análise não é sobre encontrar soluções mágicas para a vida no exterior, mas sobre ter um espaço onde a máscara de “vencedor” possa cair sem julgamentos. Um lugar onde você não precise responder ao que a família espera, mas sim um espaço para você ser.
Se você busca um espaço de escuta focado na sua singularidade — e na sua língua materna —, a psicanálise pode ser o seu caminho.
Será um prazer recebê-lo(a)

Deixe um comentário