
Você já teve a sensação de que o mundo anda “sem freio”?
Como se ninguém mais soubesse muito bem até onde pode ir — e qualquer frustração virasse ataque, ironia ou ódio, principalmente nas redes sociais? Muita gente sente isso no dia a dia:
- Pais que se sentem impotentes ao tentar estabelecer referências;
- Jovens que parecem perdidos entre o excesso de estímulos e a falta de direção;
- Relações marcadas pela impulsividade e por um profundo vazio de sentido.
A psicanálise observa esse fenômeno há algum tempo e aponta para uma questão central: a crise da alteridade. Mas o que isso significa? Significa que, quando não há uma referência que nos ensine a lidar com o “não”, perdemos a capacidade de enxergar o outro como um semelhante. O outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser apenas um objeto de descarte ou um alvo para o ódio.
Autoridade não é mandar. É sustentar a alteridade.
Muitas vezes confundimos autoridade com autoritarismo. Na psicanálise, a verdadeira função da autoridade (o que chamamos de função paterna) não serve para oprimir, mas para orientar. É ela que ajuda a criança, o jovem e o adulto a entenderem que o mundo não gira em torno deles.
É essa função que permite sustentar a alteridade e responder perguntas vitais:
“Até onde eu posso ir?” “O que é meu e o que é do outro?” “Como eu lido com o fato de que o outro é diferente de mim?”
Quando essa referência falha, o sujeito não se sente mais livre. Ele se sente desamparado.
O que acontece quando o “Outro” desaparece?
Quando não há uma referência clara que organize a vida e as relações, o ser humano tende a buscar qualquer coisa que ofereça pertencimento e direção — mesmo que isso venha de lugares perigosos.
É nesse cenário que ganham força as comunidades online que “gamificam” a crueldade. Mesmo quando um ato de violência parece isolado, o sujeito muitas vezes se apoia em uma lógica de comando ou em estéticas de horror — como as que cercam figuras como o “Cão Orelha” — para dar vazão à sua própria agressividade. O que parece ser um ato de “liberdade” é, na verdade, a busca por uma moldura para o caos interno. O jovem se identifica com essa barbárie digital para tentar preencher o vazio que a falta de uma alteridade efetiva deixou.
A violência digital é só maldade?
Nem sempre. Na clínica, vemos que muitos comportamentos agressivos escondem um pedido de lugar, de reconhecimento e de cuidado. Quando alguém não encontra um espaço simbólico onde possa falar e ser escutado, acaba tentando existir pelo choque ou pelo ato extremo.
Se não há um olhar que cuide da alteridade, qualquer olhar serve — até aquele que controla, humilha ou incita a destruição.
Por que só punir não resolve?
Porque punir sem entender a origem do problema trata apenas o sintoma e não toca na causa. Sem compreender esse desamparo atual, caímos em respostas simplistas. A questão é mais profunda: falta um espaço onde o sujeito possa construir seus próprios limites, assumindo a responsabilidade por seus atos e reconhecendo a existência do próximo.
Onde a clínica entra nisso tudo?
A psicanálise oferece um lugar raro hoje: um espaço de escuta, sem julgamento, onde a pessoa pode dar nome ao seu sofrimento e, pouco a pouco, construir uma bússola própria. Não se trata de ensinar como viver, mas de ajudar cada um a encontrar um modo menos sofrido e mais ético de se relacionar consigo mesmo e com a alteridade.
Como psicanalista, trabalho para acolher esse mal-estar e sustentar a construção de saídas possíveis para o sujeito.
Quando a alteridade desaparece, o sofrimento transborda. A escuta é o primeiro passo para reconstruir o respeito ao Outro.
*Convite para o artigo acadêmico externo (blog)
Se deseja explorar uma perspectiva mais aprofundada e fundamentada sobre a prática clínica a distância, acesse nosso artigo no blogger: https://www.blogger.com/u/2/blog/posts/527780478109224882. Nele, discutimos aspectos teóricos, éticos e técnicos do atendimento psicanalítico.

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